Fundação Roberto Rocha Brito

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CÂNCER. UM PESO A MAIS PARA OS OBESOS?

04/05/2015

Obesidade é a doença letal com crescimento mais rápido no mundo ocidental. No Brasil o número de mortes relacionadas à obesidade triplicou em um período de 10 anos (O Estado de São Paulo, 28 abril 2014). Avaliação de 97 trabalhos publicados, envolvendo 1,8 milhões de indivíduos em todo o mundo, mostrou que a doença cardiovascular é o fator mais importante no desencadeamento de morte nos obesos e está relacionada com hipertensão arterial, aumento da glicemia e do colesterol (Lancet 2014;383:935).
Estudos epidemiológicos demonstram que a obesidade aumenta incidência de morte não só por hipertensão, diabetes, doença coronariana e acidente vascular cerebral, mas também por câncer (JAMA 2003;289:187 e Ann N Y Acad Sci 2012;1271:37).
Calle e colaboradores, da American Cancer Society, Atlanta, publicaram os resultados de um estudo prospectivo envolvendo 900.000 americanos, acompanhados durante 16 anos. Os índices de morte por câncer foram maiores nos obesos (IMC maior que 40) do que nos indivíduos com peso normal (52% nos homens e 62% nas mulheres). A incidência maior de morte por câncer nos obesos foi relacionada a câncer do esôfago, colon e reto, fígado, vesícula, pâncreas, rim, linfoma não Hodgkin e mieloma múltiplo. Morte por câncer de próstata, de mama, útero e ovário foi também mais frequente nos obesos (N Engl J Med 2003;348:1625).
Renehan e colaboradores, da Universidade de Manchester, UK, avaliaram 141 estudos prospectivos envolvendo 282.137 indivíduos residentes na Europa, América do Norte, Austrália e região da Ásia-Pacífico para investigar a relação entre obesidade e incidência de câncer. Os resultados mostraram que a obesidade estava fortemente associada com adenocarcinoma do esôfago, tireoide, colon, rim, endométrio e vesícula. Essas associações ocorreram em todas as regiões estudadas. Na população da Ásia-Pacífico foi verificada forte associação da obesidade com câncer de mama (Lancet 2008;371:569).
Aleman e colaboradores, da Universidade Rockfeller, New York, avaliaram os possíveis fatores envolvidos no aumento da incidência de câncer do aparelho digestivo em obesos. Eles sugerem que a etiologia é multifatorial, relacionada com influências genéticas, hiperinsulinemia, adipokinas, inflamação, resposta imunológica, hormônios sexuais e microbiota intestinal. Esses autores alertam que nem todos os indivíduos obesos desenvolvem estas complicações e que são necessários novos estudos para entender a associação da obesidade com câncer (Gastroenterology 2014;146:357).
De toda forma está cientificamente comprovado que obesidade e saúde são irreversivelmente incompatíveis. Procurar assistência especializada é o primeiro passo para que os obesos possam se livrar de mais este peso.
Antonio Frederico N.de Magalhães
Médico do Departamento de Gastroenterologia e Endoscopia do HVC