Fundação Roberto Rocha Brito

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NOTÍCIAS A CENTENÁRIA ASPIRINA REVELA-SE TAMBÉM PODEROSA NA PREVENÇÃO DE CÂNCER.

04/05/2015

Aspirina, a medicação mais conhecida e consumida em todo o mundo, completou 116 anos de existência. Ela foi desenvolvida pelo químico alemão Hoffman, que conjugou o ácido salicílico, extraído da casca do salgueiro (chorão) com acetato, sintetizando o ácido acetil salicílico. Patenteado pela Bayer, em 1897, a aspirina foi o primeiro medicamento produzido quimicamente e distribuído na forma de comprimidos. Sua ação se popularizou como antitérmica, antiinflamatória e analgésica. Mas, a aspirina foi além e, através dos anos, teve seus benefícios constatados também em outras áreas. Uma delas, já largamente conhecida, é a prevenção de doenças cardiovasculares. Por ser um eficiente antiagregante plaquetário, seu uso diário, em baixas doses (75 – 100 mg), promove redução de 20% no risco de enfarto do miocárdio (Lancet 2009; 373: 1848).

Foi também constatado seu benefício no câncer de cólon, por diminuir a incidência e o risco de morte nesses casos (Lancet 2007; 376: 1741). Os benefícios em relação ao câncer não param por aí. Pesquisadores ingleses avaliaram oito estudos, envolvendo 25.000 pacientes, com uso diário de aspirina, em baixa dose, acompanhados durante 4 a 8 anos. Veja o que foi constatado (BMJ 2010; 321:1183, Lancet 2011; 377:31):

-redução de 21% do risco de morte por câncer;

-redução de câncer do esôfago — observada a partir de 5 anos de uso;

-redução do risco de câncer do estômago e do cólon — significativa após 10 anos de uso.

Estes trabalhos não possibilitam ainda esclarecer em que idade e durante quanto tempo a aspirina deve ser recomendada. Também não se sabe qual grupo de indivíduos pode ser mais beneficiado com a sua utilização.

De acordo com o epidemiologista americano Eric J. Jacobs o uso diário de doses baixas de aspirina, para a prevenção de câncer e de doenças cardiovasculares, apresenta melhor relação custo-benefício que a dos exames para prevenção de câncer de mama e de próstata. O benefício é alcançado mesmo quando há necessidade de se associar inibidores de bomba protônica e de erradicação do H. pylori em pacientes com risco de hemorragia digestiva alta (Lancet 2011; 377:3). A possibilidade desta complicação tem sido relatada em 2 a 3% dos casos (BMJ 2000; 321:1183). Os pacientes idosos e aqueles com passado de úlcera gastroduodenal ou de hemorragia digestiva alta são os mais predispostos a estas complicações.

Ou seja, mesmo com todos os louros, a boa e velha senhora não é milagrosa e nem deve ser indicada indiscriminadamente para toda a população. A sua recomendação como prevenção deve, como sempre, ser avaliada caso a caso.

A surpreendente eficácia da aspirina na prevenção do câncer mereceu matéria de capa do Lancet, na edição de Janeiro 2011.

ANTONIO FREDERICO MAGALHÃES

(Médico do Deptº de Gastroendoscopia do Hospital Vera cruz – Campinas – S.P.)